Não sei se isto só me acontece a mim ou se, porventura, estou mais atento que os demais. A verdade é que nos meus triviais percursos urbanos, lá vou tropeçando em pequenos fragmentos de brilhantismo.
Exactamente numa dessas excursões, na semana passada, cruzei-me com dois indivíduos, um dos quais, cinquentão, arraçado de "trolha" (sem sentido pejorativo, meramente contextual), lusitaníssimo no orgulhoso uso de pilosidade lábio-facial, enclausurou a minha a atenção durante uns sólidos 6 segundos, mas que, volvidos vários dias, ainda assalta as minhas vigílias.
Dotado de um singular sentido estético, envergava uma tradicional, mas elegante combinação de calças de ganga e t-shirt, sendo que a mesma, despretensiosamente preta, apresentava pretensiosamente escrito através de brilhantes (símbolo de virilidade latente por oposição às excessivamente femininas lantejoulas) o seguinte excerto de uma vivência:
MUSTS FORGET YOU
Uma desilusão de amor? À primeira vista dir-se-ia que sim. É só após uma análise mais fina, ainda que não necessariamente menos superficial, que a mensagem nas entrelinhas, epifanicamente, se desdobra e oferece em toda a sua plenitude semântica - desiludido sim, não de amor, mas com um sistema de ensino que nunca dotou o indivíduo do domínio de instrumentos que lhe permitissem identificar que nem tudo o que se apresenta noutra língua, só porque para si ininteligível, está, imperativamente, bem escrito.