domingo, 8 de junho de 2008

Moisés e os diabetes

Decididamente já não consigo orientar-me numa pastelaria.
Acabo sempre por pedir os mesmos 5 ou 6 bolos, apesar dos outros terem um aspecto muito melhor. Mas que hei-de fazer? Sou do tempo em que existiam meia dúzia de bolos diferentes, ao contrário desta orgia glicémica de hoje. Garanto-vos que tal é a variedade, promiscuidade e lascívia com que eles estão expostos hoje em dia que só me apetece fornicar com a montra antes que Moisés desça da montanha.
Enfim... Sou do tempo em que o bolos de côco se chamavam bolos de côco porque eram bolos e tinham... côco.
Sou do tempo em que o aspecto dos jesuítas, basicamente uma sanduíche triangular de açúcar e massa folhada, era o exacto oposto de um homem alto, austero, vestido de negro e devotado a salvar do extermínio a tribo dos Iparaminguíns, em Cascatas de Irabaçu, no estado de Piramambaína. Ou seja, nome também fácil de fixar.
Sou do tempo em que a nomenclatura dos bolos de feijão funcionava com a mesma simplicidade pristina dos bolos de côco. Sou do tempo em que cepos como eu confundiam bolas de berlinde com bolas de Berlim, mas em todo o caso existiam uns 50% de chance de acertar.
E sou do tempo em que as natas, assim chamadas porque eram feitas de nata, não precisavam de canela e colher para esconder o facto de que, sem estes artíficios, já não sabem a natas à 1984. Mas o certo que com eles também não.
Mas e agora? Como é que eu sei qual o nome daquela delícia de morango com natas e raspas de chocolate?
Arco-íris de São Martinho?
Saias de S.ta Adelaide?
Tornos de Babilónia?
Delícias de anjo à deriva?
E lá penso eu em pedir a nata, que já não sabe a nata, ou o jesuíta, tão fino que poderia fazer a barba com ele, ou o bolo de côco/feijão, em que o côco/feijão foi invariavelmente substituído por mais açúcar e mais ovo. Quanto à bola de Berlim ou berlinde já quase nem a peço. Se já é suficientemente mau não saber os nomes dos bolos de hoje, então vou fazer uma figura de parvo total ao não saber os de ontem.
E lá acabo sempre por pedir uma meia de leite e um croissant a 2 euros e 70...

3 comentários:

Soneca disse...

Como eu te percebo! Também acabo sempre por pedir a mesma coisa... Também nunca sei os nomes dos bolos e o mais acertado era andar sempre com uma cábula atrás! Mas como se isso não bastasse, ainda acontece o seguinte - os nomes dos bolos variam consoante a região! Sempre vivi em Espinho e qual não é o meu espanto quando me mudo para o Porto e percebo que alguns bolos, sendo os mesmos, têm nomes diferentes! Realmente, Espinho e Porto são separados por uns gigantescos 20 km e isso faz toda a diferença!

Quanto ao embaraço d epedires uma bola de berlinde, como diria George Costanza "don't insult me, my friend". Uma vez estava com o Curufinwë numa pastelaria perto da FLUP e estava indecisa entre um queque e uma queijada e saiu-me esta pérola: Eu queria uma que... Ainda parei antes do último "que", mas já não havia nada a fazer! Portanto, não me fales de embaraços!

Sarcaustico disse...

Pois... percebo o teu embaraço. Porque depois de pedir a que...ijada recebemos o indispensável rol de perguntas:
Mas a queijada de laranja? A de leite? A de queijo? a de côco? a de cenoura?
E quando finalmente decidimos já ela coalhou.

Curufinwë disse...

Eu não "gramo" muito bolos... É mais salgados.
Rissóis de camarão sem camarão; rissóis de carne sem carne; não sei por que os continuo a comprar - vai-se a ver e do que gosto é de farinha!